quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A linguagem da obra de arte

Matisse


"Na arte abriga-e o sentido múltiplo do mundo e o habitar resiste à sua banalização e profanação. Daí a hermenêutica e a sua exploração configuradora da verdade. A verdade da obra de arte apenas acontece na sua compreensão que por sua vez deve determinar-se como "um acontecer de sentido no qual se forma e conclui o sentido de todo o enunciado, tanto da arte como de qualquer outro género de tradição".
Isto significa que a verdade da arte é um acontecer de sentido, que se cumpre na sua recepção por parte do espectador ou intérprete. Na arte, a verdade surge-nos sob a forma de uma exigência: é preciso transformá-la em compreensão. É necessário integrar a sua mensagem na nossa situação particular concreta. Só assim somos iluminados pelo efeito do belo: quando, pela nossa interpretação, fazemos acontecer a dimensão possível do sentido aberta pelo por em obra a verdade. (...) Não existe uma interpretação única da obra de arte ou do literário. Toda a interpretação é situada e contextual. É no conflito dos horizontes que motivam as interpretações, sempre movidas pelo problema da autocompreensão humana, que se rasga finalmente, o caminho da verdade aberta pela arte. Arte e Hermenêutica fazem, pois, parte do mesmo processo do acontecer inacabado do sentido plurívoco do estar-no-mundo."
Maria Luísa Portocarrero Silva, O Significado da Obra de Arte em H. G. Gadamer, in O Homem e o Tempo

1. Tendo presente o estatuto da obra de arte, explique o sentido da seguinte afirmação: "na arte abriga-se e o sentido múltiplo do mundo e o habitar resiste à banalização e á profanação.
2. Partindo dos seus conhecimentos sobre a linguagem artística, explique o alcance da seguinte afirmação: "não existe uma interpretação única da obra de arte ou do literário.

A arte como expressão do mundo interior do artista

Klimt

O artista procura projectar na sua obra aquilo que ele encerra em si; quer de necessidade de uma certa harmonia, quer de uma maneira de pensar ou de sentir. Tenta transmitir este segredo numa imagem legível equivalente a ser decifrada pelos outros. A arte aproxima-se da expressão. O artista tenta fazer entrar mundo invisível no visível, tenta transmitir numa linguagem legível (escrita, fílmica, pictórica ou outra) para que possa ser decifrada pelos outros. A arte revela a sensibilidade e é a sensibilidade a primeira das faculdades que deve ser educada e que é suporte de toda a educação. A obra de arte é imagem-símbolo expressiva de uma realidade psíquica. Muitas vezes se crê que ela mostra os aspectos da realidade material, mas, por mais realista que seja , é a própria essência do artista que é revelada, confessada.
A obra de arte apresenta-se-nos como individual, na medida em que é concebida e realizada por uma artista. Sabemos que ele não é imune às influências daquilo que o cerca. Ele é um ser histórico com um passado que assume como seu, com um presente e tudo isso se repercute na obra que acaba por ser a expressão do mundo do artista. O artista não é o interprete cego das forças circunstanciais. Artista e sociedade conjugam-se na obra de arte que exprime a maneira de pensar, a concepção de vida e a visão do mundo dos homens que constituem a sociedade do seu tempo.

A arte como expressão do mundo exterior do artista

Monet

A arte é sempre criação, mesmo quando se julga imitar a natureza ou a vida moral e social. Porque criar é sempre reestruturar materiais, ideias, linguagens que se encontram já à nossa disposição. A arte é sempre criação não porque parta do nada, mas porque actualiza o que estava em potência.
Para Aristóteles a arte é imitação, pois a arte é em parte imitação do que é, mas há na natureza coisas que não estão acabadas nem foram levadas a bom fim. A arte acaba o que a natureza não teve tempo nem gosto de acabar. A arte rivaliza com a natureza. Todas as artes são artes de imitação. A arte e o homem são indissociáveis. Não há arte sem homem, mas talvez não haja homem sem arte. Através dela, o homem exprime-se mais completamente, compreende-se e realiza-se melhor.
Porque é que a arte é uma necessidade? A arte é uma função essencial do homem, indispensável ao indivíduo ao indivíduo como às sociedades. A arte começa no momento em que o homem cria, para representar ou para exprimir. A arte aproxima-se de uma impressão.
A arte não é só expressão do mundo exterior, ela é também forma de comunicação. A arte fixa o modo imediato, emotivo, modelos de comportamento, projectos de vida. A comunicação faz parte da essência de toda a actividade social do homem a começar pela produção em geral e pela produção artística em particular.
A produção artística orienta a vida do artista, por meio do objecto artístico procura orientar toda a acção dos homens em função de modelos, horizontes de sentido. A arte não pode dissociar-se do mundo natural e do mundo social.O artista não pode visar o mundo exterior sem arrastar com ele a revelação do seu mundo interior. Não pode aspirar a mostrar o seu mundo interior sem passar pelo intermediário dos aspectos do mundo exterior. O mundo natural só interessa ao artista como ponto de partida, como pretexto para dar livre curso às suas emoções.

Filme "Modigliani - Paixão pela Vida"

Modigliani
Ele revolucionou o mundo das artes como um cometa, dançando sobre as mesas, embriagado de paixão pela vida. Inspirado pelo amor e consumido pela obsessão. Ele é o famoso pintor italiano Amedeo Modigliani, um gênio criativo que viveu e absorveu a charmosa Paris do início do século 20 com uma atração incontrolável pela beleza. Sempre com a mesma intensidade, o judeu Modigliani amou a católica Jeanne Hebuterne e odiou o genial Pablo Picasso. Sua obra inesquecível e sua vida atribulada são agora retratadas neste lançamento imperdível da Universal Pictures que não pode ficar de fora de nenhuma prateleira de bom gosto.

O filme "Frida"


O filme retrata a vida da pintora mexicana Frida Kahlo, desde a sua adolescência até a morte. Frida Kahlo foi um dos principais nomes da história artística do México. Conceituada e aclamada como pintora, ela teve também um casamento aberto com Diego Rivera, seu companheiro também nas artes, e ainda um controverso caso com o político Leon Trostky e com várias outras mulheres.
No filme, o marido Diego Rivera representa um mulherengo, e Frida aceita-o pedindo-lhe apenas lealdade, o que nao acontece quando Frida encontra Diego com sua irmã, então ela pede o divórcio.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O artista e o tempo

Picasso


"Esta necessidade interior é constituída por três necessidades místicas:
1.º Todo o artista, como criador, deve expressar o que é próprio da sua pessoa (elemento da personalidade)
2.º Todo o artista, como filho da sua época, deve expressar o que é próprio da sua época (elemento de estilo no seu valor interno, composto pela linguagem da época e pela linguagem do povo, todo o tempo que este se mantenha como nação);
3.º Todo o artista, como servidor da arte, deve expressar o que em geral, é o próprio da arte (elemento da arte pura e eterna que se encontra em todos os seres humanos, em todos os povos e em todos os tempos, que aparece na obra de arte de todos os artistas, de todos os artistas, de todas as nações e de todas as épocas e que não obedece, como elemento essencial da arte, a nenhuma lei espacial ou temporal).
Através dos dois primeiros elementos, olho espiritual põe a descoberto o terceiro. Há que convir então que a coluna " toscamente" esculpida de um templo índio está armada pela mesma alma que uma obra viva da mais pretendida modernidade.
Só o elemento de arte puro e eterno conservará o seu valor. Em vez de diminuir a sua força, o tempo aumentá-la -á sem cessar e conferir-lhe - á uma renovada pujança. Quanto mais uma obra "actual" possui esses elementos característicos do artista e do seu século, tanto mais fácil será ter acesso à alma dos seus contemporâneos. Em contrapartida, quanto mais predomina naquela o elemento puro e eterno, mais ocultos parecerão os outros dois, e mais dificuldade tenderá a obra em aceder à alma dos seus destinatários. Às vezes são necessários séculos para que o puro alcance por fim a alma humana.
Pode-se, portanto, afirmar que a preponderância do terceiro elemento numa obra constitui o índice da grandeza do artista."
Wassily Kandinsky, Do Espiritual na Arte e na Pintura em Particular


1. Partindo do texto, comente o modo como a criação do artista nos permite conhecer melhor o sujeito humano e mundo que o envolve.
2. A obra de arte caracteriza-se pelo seu carácter multidimensional. Reproduza elementos do texto que comprovem esta característica da obra de arte.

(Retirado do site Netprof)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O criador artístico

Monet


"O criador é o homem que recusa a aparência para encontrar o momento do aparecer, para converter a epifania do sensível em hierofania. Assim nos conduz a pintura contemporânea à do olhar, aonde se não pode ainda dizer: já vi; a música à origem da audição; a poesia à origem da palavra. Desconstruindo a prosa que consagra a prosa do mundo, a poesia restitui ao nome o seu parentesco original com o que nomeia, restitui a linguagem à sua natureza, à natureza.
Por outras palavras, o criador é aquele homem que, abandonando a segurança da representação, retorna à presença, na proximidade do originário onde o homem e o mundo não estão ainda separados, simultaneamente para se deixar inspirar por esta familiaridade nativa e para dizer ao seu modo: para dizer a criação.
Mikel Dufrenne A Estética e as Ciências da Arte, p. 56. Livraria Bertrand.

1. Tendo o texto como referência, discuta o papel desempenhado pelo criador da obra arte.
2. Diga por que motivo, a obra de arte, é um modo de "desconstruir" a realidade sensível.

(Retirado do site Netprof)