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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O criador artístico

Monet


"O criador é o homem que recusa a aparência para encontrar o momento do aparecer, para converter a epifania do sensível em hierofania. Assim nos conduz a pintura contemporânea à do olhar, aonde se não pode ainda dizer: já vi; a música à origem da audição; a poesia à origem da palavra. Desconstruindo a prosa que consagra a prosa do mundo, a poesia restitui ao nome o seu parentesco original com o que nomeia, restitui a linguagem à sua natureza, à natureza.
Por outras palavras, o criador é aquele homem que, abandonando a segurança da representação, retorna à presença, na proximidade do originário onde o homem e o mundo não estão ainda separados, simultaneamente para se deixar inspirar por esta familiaridade nativa e para dizer ao seu modo: para dizer a criação.
Mikel Dufrenne A Estética e as Ciências da Arte, p. 56. Livraria Bertrand.

1. Tendo o texto como referência, discuta o papel desempenhado pelo criador da obra arte.
2. Diga por que motivo, a obra de arte, é um modo de "desconstruir" a realidade sensível.

(Retirado do site Netprof)

sábado, 3 de janeiro de 2009

Sensibilidade e Juízo Estético

Matisse

Quando uma edificação (ex. fonte de Grândola), uma pintura, uma escultura ou uma mulher não deixa o observador indiferente, este reage dizendo: "gosto" ou "não gosto". Todos temos o direito de nos exprimirmos assim, qualquer que seja a nossa cultura ou capacidade de observação. Com efeito, não se discutem preferências individuais, porque estas são apenas opiniões subjectivas, que nunca deixam de ter razão, mas também nunca a têm, porque, para ter razão, é necessário que nos apoiemos em princípios objectivos. No campo dos valores estéticos, ou do Belo [consideramos, neste contexto, o conceito de belo, no mais amplo sentido desta palavra, como o trágico, o admirável, o amorável, etc.], a preferência subjectiva é a única possível. Qualquer indivíduo que desenvolvesse esforços no sentido de convencer os outros de que uma mulher deve ou não agradar, não só se cobriria de ridículo, como se tornaria suspeito. E tal posição só deveria merecer o alheamento dos outros. Com efeito, nenhum juízo crítico será possível se a sensibilidade artística faltar; mas não é menos verdade que a sensibilidade artística não é qualquer coisa simples como uma operação matemática; é, sim, o resultado de um conjunto de actividades humanas; desenvolve-se e amadurece com a experiência de vida e com a cultura. Aquele que é dado à contemplação, com afectuoso interesse, tornar-se-á mais capaz de sentir a qualidade da arte do que aqueloutro que possui um espírito destorcido e espontâneo. A prática da observação estética enriquecerá a sua sensibilidade. Porquanto, o que interessa não é justamente a mensagem, ou a sua significação reduzida a termos intelectuais, mas sim o objecto no qual se condensa uma experiência. Se somos sensíveis, perante um objecto estético, ou do Belo, experimentamos uma sensação e emoção intensas. A observação do Belo torna-se em paliativo, faz com que a pouco e pouco, as preocupações do momento se dissipem. O nosso pensamento como que se transcende, dirige-se para o universo, a sua grandeza, os seus limites que não podemos conceber; sentimos a nossa continuidade com este mundo de que somos parte e com o qual formamos corpo. Denominaremos este sentimento complexo como sentimento de existência da natureza. Este sentimento não pode ser reduzido a nenhum outro; só a natureza é capaz de o fazer nascer em nós. Vemos, portanto, que o domínio da beleza natural é complexo: este domínio é distinto do domínio da arte, que é o das obras humanas; é essencial não atribuir a um o que provém do outro e fazer uma distinção definitiva entre beleza natural e beleza estética das obras de arte. O som da guitarra portuguesa agrada-nos; a observação de um jardim encanta-nos, os versos de Pessoa deliciam-nos. São impressões específicas, a que se convencionou denominar por sentimentos estéticos. Impressões que, em maior ou menor grau, não há quem não as tenha sentido. Só que cada um sente o seu prazer estético de modo peculiar e a variedade dos gostos abre-se num leque multiforme e matizado. Dir-se-á que não há apenas uma fruição do Belo artístico, mas miríades. Cada um vê as coisas à sua maneira. Um quadro, por exemplo, será percepcionado de modo diferente, segundo o observador se interesse pela sua estética ou pela sua função, pela sua forma, pela sua cor ou pelo material utilizado. E convém recordar que um quadro não pode ser visto inteiramente de uma vez, com um só olhar. O visitante de um museu ou de uma galeria de arte pode dar livre curso à sua imaginação e formular juízos legitimamente subjectivos, juízos que, por outro lado, terá de rever frequentemente, visto que, sempre que voltamos a observar o mesmo objecto estético, encontraremos um pormenor que ainda não nos tinha sensibilizado. É na vida povoada de seres e de coisas, e regida por ideias, que o homem ama, sofre, se apraz, se alegra ou se comove. Por isso a arte nasce ligada à totalidade da vida, é uma recriação da própria vida. Sociedade, ideologia, religião, moral, política, tudo faz parte da experiência humana e tudo a arte exprime. De tudo a arte se nutre: do bem como do mal, do belo como do feio, do justo como do injusto, do verdadeiro como do falso, do real como do ilusório, do concreto como do ideal, da acção como do pensamento. Se esta reflexão tem algum sentido, como poderão todos os grandolenses gostar da "Fonte", que a actual Câmara edificou, se cada um expressa os seus sentimentos conforme as suas motivações do momento? Mas que a fonte está ali bem, lá isso está!
António Pinela, Reflexões, Fevereiro de 2004

1. Porque motivo se pode afirmar que no domínio dos juízos estéticos prevalece a subjectividade humana?
2. Explique, tendo o texto como referência o que entende por sensibilidade estática.
3. "A arte faz parte da vida". Concorda com a opinião do autor? Justifique a sua resposta.
(Retirado do site Netprof)

O que é a arte?

Matisse

"O ponto de partida de todos os sistemas de estética tem de ser a experiência pessoal de um emoção particular. Aos objectos que provocam esta emoção chamamos "obras de arte". Todas as pessoas sensíveis concordam em afirmar que as obras de arte provocam uma emoção peculiar. Naturalmente, não quero com isto dizer que todas as obras provocam a mesma emoção. Pelo contrário, cada obra gera uma emoção diferente. Mas todas estas emoções podem ser identificadas como emoções da mesma espécie. Seja como for, até ver, a melhor opinião está do meu lado. Julgo que a existência de uma espécie particular de emoção, provocada pelas obras de arte visual, emoção essa que é provocada por todos os géneros de arte visual (pinturas, esculturas, edifícios, vasos, gravuras, têxteis, etc., etc), não é posta em dúvida por quem for capaz de a sentir. Esta emoção chama-se "emoção estética" e, se pudermos descobrir alguma qualidade comum e peculiar de todos os objectos que a provocam, teremos solucionado o que considero ser o problema central da estética. Teremos descoberto a qualidade essencial da obra arte, a qualidade que distinga as obras de arte de todas as outras classes de objectos.
Pois ou todas as obras de arte visual têm uma qualidade comum, ou quando falamos de "obra da arte", estamos a divagar sem nexo. Toda a gente fala de "arte", operando uma classificação mental pela qual distingue a classe das "obras de arte" de todas as outras classes. Qual é a justificação para esta classificação? Qual é a qualidade comum e peculiar de todos os membros desta classe? Seja qual for, não há dúvida de que se encontra frequentemente em companhia de outras qualidades; mas estas são adventícias - aquela é essencial. Tem de haver uma qualidade sem a qual não pode haver obra de arte. Possuindo - a, ainda que em grau mínimo, nenhuma obra é desprovida de valor. Que qualidade é esta? Qual é a qualidade que é partilhada por todos os objectos que provocam emoções estéticas? Qual é a qualidade que é comum a Santa Sofia e às janelas de Chartres, à escultura mexicana, a uma taça persa, aos tapetes chineses, aos frescos de Giotto, em Pádua, e às obras primas de Poussin, Piero, della Francesca e Cézanne? Parece-me que há uma única resposta possível: a forma significante. Em cada um destes objectos, uma particular combinação de linhas e cores, certas formas e relações entre formas, despertam as nossas emoções estéticas. A estas relações e combinações de linhas e cores, a estas formas esteticamente estimulantes, chamo eu " Forma Signifcante", e a "Forma Significante" é a única qualidade comum a todas as obras de arte visual."
Clive Bell, O Que é a Arte, (A perspectiva analítica), Dinalivro, pp. 29 e 30



1. Segundo o texto o ponto de partida de todas as obras de arte é a emoção estética. Concorda com a perspectiva do autor? Justifique a sua resposta.
2. Diga o que entende por "forma significante".
(Retirado do site Netprof)